Nossa vocação é servir
Ao reverendo doutor Johann Hess, pastor de Breslau, e a seus companheiros, servos do evangelho de Jesus Cristo.

Martinho Lutero

Graça e paz de Deus nosso Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo. Tua carta, enviada a mim em Wittenberg, foi recebida há algum tempo. Desejas saber se é adequado para um cristão fugir de uma praga mortal. Deveria ter respondido há muito tempo, mas Deus há algum tempo me disciplina e me açoita com tanta severidade que tenho me sentido incapaz de ler e escrever muito[1]. Além disso, ocorreu-me que Deus, o Pai misericordioso, dotou-te tão ricamente de sabedoria e verdade em Cristo, que deves estar bem qualificado para decidir sobre esse assunto ou problemas ainda mais sérios no Espírito e na graça dEle, sem a nossa ajuda.

Mas agora que continuas escrevendo para mim e, por assim dizer, tem te humilhado ao solicitar nossa opinião sobre esse assunto, para que, como São Paulo repetidamente ensina, possamos sempre concordar um com o outro e ter uma mente [1 Coríntios. 1:10; 2 Coríntios. 13:11; Filipenses. 2:2]. Portanto, aqui damos nossa opinião, na medida em que Deus nos concede entender e perceber. Humildemente, submeteríamos [nossa opinião] a teu julgamento e ao de todos os cristãos devotos para que, como é apropriado, cheguem à sua própria decisão e conclusão. Como os rumores de morte são ouvidos nessas e em muitas outras partes, permitimos que nossas instruções sejam impressas, porque outros também podem querer usá-las.

Para começar, algumas pessoas têm a firme opinião de que não é necessário, nem se deve, fugir de uma praga mortal. Pelo contrário, como a morte é castigo de Deus, que Ele nos envia por nossos pecados, devemos nos submeter a Deus e com uma fé verdadeira e firme, aguardar pacientemente nosso castigo. Elas consideram fugir como algo completamente errado e como uma falta de fé em Deus. Outros assumem a posição de que alguém pode fugir decentemente, principalmente se não tiver um cargo público.

Não posso censurar as primeiras por sua excelente decisão. Elas defendem uma boa causa, a saber, uma forte fé em Deus, e merecem elogios porque desejam que todo cristão se apegue a uma fé forte e firme. É preciso mais do que uma fé de leite[2]para esperar uma morte ante a qual a maioria dos próprios santos já esteve, e ainda está, com medo. Quem não aclamaria essas pessoas sérias para quem a morte é uma coisa pequena? Aceitam de bom grado o castigo de Deus, fazendo-o sem tentar a Deus, como ouviremos mais adiante.

Como geralmente é verdade para os cristãos que poucos são fortes e muitos são fracos, simplesmente não se pode colocar o mesmo fardo sobre todos. Uma pessoa que tem uma fé forte pode beber veneno e não sofrer nenhum dano, Marcos 16 [:18], enquanto alguém que tem uma fé fraca, beberia até a morte. Pedro podia andar sobre a água porque era forte na fé. Quando ele começou a duvidar e sua fé enfraqueceu, ele afundou e quase se afogou[3]. Quando um homem forte viaja com um homem fraco, ele deve conter-se para não andar a uma velocidade proporcional à sua força, para não estabelecer um ritmo assassino para seu companheiro fraco. Cristo não quer que seus fracos sejam abandonados, como São Paulo ensina em Romanos 15 [:1] e 1 Coríntios 12 [:22ss.]. Em poucas palavras, de forma breve e concisa, fugir da morte pode acontecer de duas maneiras. Primeiro, isso pode acontecer em desobediência à palavra e ordem de Deus. Por exemplo, no caso de um homem que está preso por causa da palavra de Deus e que, para escapar da morte, nega e repudia a palavra de Deus. Em tal situação, todos têm claro o mandato e o comando de Cristo de não fugir, mas sofrer a morte, como Ele diz: “mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” e “Não temais os que matam corpo e não podem matar a alma”, Mateus 10 [:28, 33].

Aqueles que estão envolvidos em um ministério espiritual, como pregadores e pastores, também devem permanecer firmes diante do perigo da morte[4]. Temos uma ordem clara de Cristo: "O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge" [João 10:11][5]. Pois é quando as pessoas estão morrendo que elas mais precisam de um ministério espiritual que fortaleça e conforte suas consciências por palavra e sacramento e que, na fé, supere a morte. Todavia, onde há pregadores suficientes em uma localidade e eles concordem em incentivar outros membros do clero a ir embora para não se expor desnecessariamente ao perigo, não considero essa conduta pecaminosa porque os serviços espirituais são prestados e porque eles estariam prontos e dispostos a ficar, se necessário fosse. Lemos que Santo Atanásio[6]fugiu de sua igreja para que sua vida pudesse ser poupada porque muitos outros estavam lá para administrar seu serviço. Da mesma forma, os irmãos em Damasco colocaram Paulo em uma cesta por cima do muro para permitir que ele escapasse, Atos 9 [:25]. E também em Atos 19 [:30], Paulo se permitiu evitar riscos no mercado, porque não era essencial fazê-lo.

Consequentemente, todos aqueles em cargos públicos, como prefeitos, juízes e similares, têm a obrigação de permanecer. Essa também é a palavra de Deus, que institui autoridade secular e ordena que cidade e país sejam governados, protegidos e preservados, como ensina São Paulo em Romanos 13 [:4]: “visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem”. Abandonar uma comunidade inteira sobre a qual alguém foi chamado a governar e deixá-la sem oficial ou governo, exposta a todo tipo de perigo, como incêndios, assassinatos, tumultos e todo desastre imaginável, é um grande pecado. É o tipo de desastre que o diabo gostaria de instigar onde quer que não haja lei e ordem. São Paulo diz: “Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente” [1 Timóteo. 5:8]. Por outro lado, se em grande fraqueza eles fugirem, mas fornecerem substitutos capazes para garantir que a comunidade seja bem governada e protegida, como indicamos anteriormente, e se eles os supervisionarem [isto é, os substitutos] contínua e cuidadosamente, tudo isso seria adequado.

O que se aplica a essas duas funções [igreja e estado] também deve ser aplicado a pessoas que mantêm um relacionamento de serviço ou de dever um com o outro. Um servo não deve deixar seu senhor nem uma criada a sua senhora, a não ser com o conhecimento e a permissão do senhor ou da senhora. Mais uma vez, um senhor não deve abandonar seu servo nem uma senhora a sua criada, a menos que provisões adequadas para seus cuidados tenham sido feitas em algum lugar. Em todos esses assuntos, é um mandamento divino que os servos e as criadas prestem obediência e, da mesma forma, senhores e senhoras devem cuidar de seus servos[7]. Da mesma forma, pais e mães são obrigados pela lei de Deus a servir e ajudar seus filhos, e os filhos, a seus pais e mães. Da mesma forma, funcionários públicos remunerados, como médicos da rede municipal, funcionários e agentes da cidade, ou quaisquer que sejam seus títulos, não devem fugir, a menos que forneçam substitutos capazes que sejam aceitáveis pelo empregador.

No caso de crianças órfãs, guardiões ou amigos íntimos têm a obrigação de permanecer com eles ou de providenciar diligentemente outros cuidados de enfermagem para seus amigos doentes. Sim, ninguém ouse deixar seu vizinho, a menos que haja outros que cuidem dos doentes em seu lugar. Nesses casos, devemos respeitar a palavra de Cristo: "achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me..." [Mateus 25:41-46]. De acordo com esta passagem, estamos ligados um ao outro de tal maneira que ninguém pode abandonar o outro em sua angústia, mas é obrigado a ajudá-lo, como ele próprio gostaria de ser ajudado[8].

Onde não existe tal emergência e onde há pessoas suficientes para cuidar dos doentes, e onde, voluntariamente ou por ordens, aqueles que são fracos na fé providenciam provisões para que não haja necessidade de ajudantes adicionais ou onde os doentes não os querem e recusam seus serviços, julgo que eles têm uma escolha igual para fugir ou permanecer. Se alguém é suficientemente ousado e forte em sua fé, fique em nome de Deus; isso certamente não é pecado. Se alguém é fraco e temeroso, fuja em nome de Deus, desde que não negligencie seu dever para com o próximo e faça provisões adequadas para que outros prestem assistência. Fugir da morte e salvar a sua vida é uma tendência natural, implantada por Deus e não proibida, a menos que seja contra Deus e o próximo, como diz São Paulo em Efésios 4 [5:29]: “Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes a alimenta e dela cuida." É até ordenado que todo homem preserve, tanto quanto possível, o corpo e a vida e não os negligencie, como diz São Paulo em 1 Coríntios 12 [:21-26]: Deus ordenou aos membros do corpo que cada um se importe e trabalhe para o outro.

Não é proibido, mas sim ordenado que, pelo suor do nosso rosto, procuremos nossa comida, roupa e tudo de que precisamos diariamente e evitemos a destruição e o desastre sempre que pudermos, desde que o façamos sem prejudicar nosso amor e nosso dever para com o nosso próximo. Quão mais apropriado é, portanto, procurar preservar a vida e evitar a morte se isso puder ser feito sem prejuízo ao próximo, na medida em que a vida é mais do que comida e roupas, como o próprio Cristo diz em Mateus 5 [6:25]. No entanto, se alguém é tão forte na fé que pode voluntariamente sofrer a nudez, a fome e o desejo sem tentar a Deus e não tentar escapar, embora possa fazê-lo, continue assim, mas não condene aqueles que não farão, ou não conseguirão fazer, o mesmo.

Os exemplos nas Sagradas Escrituras abundantemente provam que fugir da morte não é errado por si só. Abraão era um grande santo, mas ele temia a morte e escapou fingindo que sua esposa, Sara, era sua irmã[9]. Como ele o fez sem negligenciar ou afetar adversamente o próximo, isso não foi considerado pecado contra ele. Seu filho, Isaque, fez o mesmo[10]. Jacó também fugiu de seu irmão Esaú para evitar que fosse morto pelas mãos dele[11]. Da mesma forma, Davi fugiu de Saul e de Absalão[12]. O profeta Urias escapou do rei Jeoaquim e fugiu para o Egito[13]. O valente profeta Elias, 1º Reis 19 [:3], havia destruído todos os profetas de Baal por sua grande fé, mas depois, quando a rainha Jezabel o ameaçou, ele ficou com medo e fugiu para o deserto. Antes disso, Moisés fugiu para a terra dos midianitas quando o rei o procurou no Egito[14]. Muitos outros fizeram o mesmo. Todos eles fugiram da morte quando era possível e salvaram suas vidas, mas sem privar seus vizinhos de nada, antes cumprindo primeiro suas obrigações para com eles.

Sim, você pode responder, mas esses exemplos não se referem à morte por pestilência, mas à morte sob perseguição. Resposta: Morte é morte, não importa como ela ocorra. Segundo a Sagrada Escritura, Deus enviou seus quatro flagelos: pestilência, fome, espada e feras[15]. Se é permitido fugir de um ou de outro com a consciência limpa, por que não dos quatro? Nossos exemplos demonstram como os santos padres escaparam da espada; é bastante evidente que Abraão, Isaque e Jacó fugiram de outros flagelos, a saber, fome e morte, quando foram ao Egito para escapar da fome, como nos é dito em Gênesis [40-47]. Da mesma forma, por que não fugir das bestas selvagens? Ouço as pessoas dizerem: "Se a guerra ou os turcos vierem, não se deve fugir de sua vila ou cidade, mas ficar e aguardar o castigo de Deus pela espada". Isso é verdade; quem tem uma fé forte que aguarde sua morte, mas não se deve condenar aqueles que fogem.

Por esse raciocínio, quando uma casa está pegando fogo, ninguém deve correr para fora ou correr para ajudar, porque esse fogo também é um castigo de Deus. Quem cai em águas profundas não se atreva a nadar, mas se renda à água como castigo divino. Muito bem, faça-o se puder, mas não tente a Deus, e permita que outras pessoas façam o que puderem. Da mesma forma, se alguém quebra uma perna, é ferido ou mordido, ele não deve procurar ajuda médica, mas dizer: “É o castigo de Deus. Eu o suportarei até que se cure sozinho”. O clima congelante e o inverno também são a punição de Deus e podem causar a morte. Por que correr para entrar ou para ficar perto do fogo? Seja forte e fique do lado de fora até que fique quente novamente. Não deveríamos precisar, então, de farmacêuticos, drogas nem de médicos, porque todas as doenças são um castigo de Deus. Fome e sede também são grandes punições e torturas. Por que você come e bebe em vez de se deixar punir até que a fome e a sede parem? Por fim, essa conversa levará ao ponto em que abreviamos a Oração do Senhor e não oramos mais, "livra-nos do mal, Amém", pois teríamos que parar de orar para sermos salvos do inferno e parar de tentar escapar dele. Ele [o inferno] também é o castigo de Deus, assim como todo tipo de mal. Onde tudo isso terminaria?

Do que foi dito, inferimos essa orientação: devemos orar contra toda forma de mal e nos proteger contra ele da melhor maneira possível, a fim de não agir de maneira contrária a Deus, como foi explicado anteriormente. Se for da vontade de Deus que o mal venha sobre nós e nos destrua, nenhuma de nossas precauções nos ajudará. Todos devem ter isso em mente: primeiro, se alguém se sentir obrigado a permanecer onde a morte se alastra para servir ao próximo, recomende-se a Deus e diga: “Senhor, estou em Tuas mãos; Tu me guardaste aqui; seja feita a Tua vontade. Eu sou Tua humilde criatura. Tu podes me matar ou me preservar nesta pestilência da mesma maneira como se eu estivesse em fogo, água, seca ou em qualquer outro perigo”. Se um homem é livre, no entanto, e pode escapar, recomende-se e diga: “Senhor Deus, sou fraco e temeroso. Portanto, estou fugindo do mal e estou fazendo o possível para me proteger contra ele. No entanto, estou em Tuas mãos neste perigo como em qualquer outro que possa me alcançar. Seja feita a Tua vontade. Minha fuga por si só não terá êxito, porque a calamidade e os danos estão por toda parte. Além disso, o diabo nunca dorme. Ele é um assassino desde o começo [João 8:44] e tenta em todos os lugares instigar assassinatos e infortúnios[16].”

Do mesmo modo, temos o dever para com o nosso próximo de conceder-lhe o mesmo tratamento em outros problemas e perigos também. Se a casa dele está pegando fogo, o amor me obriga a correr para ajudá-lo a apagar as chamas. Se houver pessoas suficientes para apagar o incêndio, eu posso ir para casa ou permanecer para ajudar. Se ele cair na água ou em uma cova, não ouso virar as costas, mas devo apressar-me para ajudá-lo da melhor maneira possível. Se houver outras pessoas para fazê-lo, estou liberado. Se vejo que ele está com fome ou com sede, não posso ignorá-lo, mas devo oferecer comida e bebida, desconsiderando se eu correria o risco de me empobrecer ao fazê-lo. Um homem que não ajude ou apoie outros, a menos que possa fazê-lo sem afetar sua segurança ou sua propriedade, nunca ajudará seu próximo. Ele sempre considerará a possibilidade de que isso traga alguma desvantagem e dano, perigo e perda. Nenhum vizinho pode viver ao lado de outro sem risco para sua segurança, propriedade, esposa ou filho. Ele deve correr o risco de que um incêndio ou outro acidente comece na casa do vizinho e o destrua fisicamente ou o prive de seus bens, esposa, filhos e tudo o que ele tem.

Quem não faz isso pelo próximo, mas o abandona e o deixa para o infortúnio, torna-se assassino aos olhos de Deus, como São João declara em suas epístolas: "Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino", e novamente: "Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?" [1 João 3:15, 17]. Esse também é um dos pecados que Deus atribuiu à cidade de Sodoma quando Ele fala por meio do profeta Ezequiel [16:49]: “Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado.” Cristo, portanto, os condenará como assassinos no último dia, quando Ele disser: "achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me" [Mateus 25:43]. Se esse for o julgamento daqueles que falharam em visitar os doentes e necessitados ou em oferecer-lhes alívio, o que acontecerá com aqueles que os abandonaram e os deixaram ficar ali, como cães e porcos? Sim, como se sairão aqueles que roubam os pobres do pouco que eles têm e os atormentam de todas as formas? É isso que os tiranos fazem com os pobres que aceitam o evangelho. Mas que seja assim; eles têm a sua condenação.

Seria bom, onde exista um governo eficiente nas cidades e estados, manter casas e hospitais municipais com pessoal para cuidar dos doentes, para que pacientes de casas particulares possam ser enviados para lá – como foi a intenção e o objetivo de nossos antepassados com tantos legados piedosos, hospícios, hospitais e enfermarias, para que não seja necessário que todos os cidadãos mantenham um hospital em sua própria casa. Seria, de fato, um arranjo bom, louvável e cristão, ao qual todos deveriam oferecer ajuda e contribuições generosas, particularmente o governo. Em locais onde não existam tais instituições – e elas existem em apenas alguns lugares –, devemos prestar assistência hospitalar e ser enfermeiros uns dos outros em qualquer situação extrema, ou arriscaremos a perda da salvação e da graça de Deus. Assim, está escrito na palavra e no comando de Deus: "Ame o seu próximo como a ti mesmo" e em Mateus 7 [:12]: "Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles".

Agora, se uma epidemia mortal ocorrer, devemos permanecer onde estamos, fazer nossos preparativos e encorajarmo-nos no fato de estarmos mutuamente unidos (como indicado anteriormente), para que não consigamos abandonar um ao outro ou fugir um do outro. Primeiro, podemos ter certeza de que o castigo de Deus veio sobre nós, não apenas para nos castigar por nossos pecados, mas também para testar nossa fé e nosso amor – nossa fé, para que possamos ver e experimentar como devemos agir em relação a Deus; nosso amor, para que possamos reconhecer como devemos agir em relação ao próximo. Sou da opinião de que todas as epidemias, como qualquer praga, se espalham entre as pessoas por espíritos malignos que envenenam o ar ou exalam um hálito pestilento que coloca um veneno mortal na carne. No entanto, este é o decreto e a punição de Deus, aos quais devemos pacientemente nos submeter e servir ao próximo, arriscando nossa vida dessa maneira, como ensina São João: “Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos” [1 João 3:16].

Quando alguém for dominado pelo horror e pela repugnância na presença de uma pessoa doente, deve ter coragem e força na firme garantia de que é o diabo que desperta tanta aversão, medo e ódio em seu coração. Ele é um diabo tão amargo e indecente, que não apenas tenta destruir e matar incessantemente, mas também se deleita em nos deixar mortalmente com medo, preocupados e apreensivos, para que possamos considerar a morte horrível e não ter descanso ou paz durante toda a nossa vida. E assim o diabo nos excretaria desta vida, enquanto tentasse nos fazer perder a esperança em Deus, nos tornando indispostos e despreparados para morrer e, sob o céu tempestuoso e escuro do medo e da ansiedade, fazendo-nos esquecer e perder Cristo, nossa luz e vida, e abandonar nosso próximo em seus problemas. Assim pecaríamos contra Deus e o homem; isso seria a glória e o prazer do diabo. Como sabemos que é o jogo do diabo induzir esse medo e pavor, devemos, por outro lado, minimizá-lo, ter coragem de contrariá-lo e irritá-lo e enviar esses terrores de volta a ele. E devemos nos armar com esta resposta ao diabo:

“Afaste-se, seu diabo, com seus terrores! Só porque você odeia isso, vou desprezá-lo indo mais rápido para ajudar meu próximo doente. Não prestarei atenção a você: tenho dois golpes pesados contra você: o primeiro é que sei que ajudar meu próximo é uma ação que agrada a Deus e a todos os anjos; por essa ação, faço a vontade de Deus e presto verdadeiro serviço e obediência a ele. Ainda mais porque se você odeia e se opõe fortemente a isso [ajudar ao próximo], deve ser particularmente aceitável para Deus. Eu faria isso prontamente e com prazer se pudesse agradar apenas um anjo que pudesse olhar com deleite. Mas, como isso agrada a meu Senhor Jesus Cristo e a toda a hoste celestial, porque é a vontade e o mandamento de Deus, meu Pai, como poderia algum medo de você fazer com que eu estragasse tanta alegria no céu ou tanto prazer para meu Senhor? Ou como eu poderia, ao lisonjeá-lo, dar a você e a seus demônios razões para zombar e rir de mim? Não, você não terá a última palavra! Se Cristo derramou seu sangue por mim e morreu por mim, por que não devo me expor a alguns pequenos perigos por Ele e desconsiderar essa débil praga? Se você pode aterrorizar, Cristo pode me fortalecer. Se você pode matar, Cristo pode dar vida. Se você tem veneno nas presas, Cristo tem um remédio muito maior. Não deveria meu querido Cristo, com Seus preceitos, Sua bondade e todo Seu incentivo, ser mais importante em meu espírito do que você, diabo malandro, com seus falsos terrores em minha carne fraca? Deus não permita! Afaste-se, diabo. Aqui está Cristo e aqui estou eu, servo dEle neste trabalho. Que Cristo prevaleça! Amém."

O segundo ataque contra o Diabo é a poderosa promessa de Deus pela qual Ele encoraja aos que ministram aos necessitados. Ele diz no Salmo 41 [:1-3], “Bem-aventurado o que acode ao necessitado; o Senhor o livra no dia do mal. O Senhor o protege, preserva-lhe a vida e o faz feliz na terra; não o entrega à discrição dos seus inimigos. O Senhor o assiste no leito da enfermidade; na doença, tu lhe afofas a cama.” Não são estas as gloriosas e poderosas promessas de Deus que recaem sobre aqueles que estão à frente daqueles que ministram cuidado aos necessitados? O que poderia nos aterrorizar ou nos paralisar diante de tão grande conforto divino? O serviço que podemos oferecer aos necessitados é certamente uma coisa tão pequena em comparação com as promessas e recompensas de Deus sobre as quais São Paulo diz a Timóteo, “Pois o exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser”. A piedade não é nada mais do que o serviço a Deus. O serviço a Deus é na verdade um serviço ao próximo. Já foi demonstrado pela experiência que aqueles que assistem aos doentes com amor, devoção e com sinceridade são geralmente protegidos, e ainda que sejam contaminados, não são prejudicados.Como diz o Salmo [41:3], “O Senhor o assiste no leito da enfermidade”, isto é, Ele transforma o leito de enfermidade em leito de bem-estar. Aquele que atende um paciente por ganância, ou na expectativa de alguma vantagem pessoal, não deveria se surpreender se eventualmente ele for infectado, desfigurado ou até mesmo que morra antes que possa receber a posse destas propriedades ou heranças.

Mas aquele que serve aos doentes por amor às graciosas promessas de Deus, ainda que aceite recompensa digna à qual tem direito, assim como todo trabalhador é digno do seu salário - aquele que assim o faz tem a grande certeza de que em retorno será consolado. O próprio Deus o consolará e será o seu médico. E que grande consolador Ele é! Que médico! Amigo, o que são todos os médicos, todos os farmacêuticos e guardiões em comparação a Deus? Não deveria isso encorajar alguém a ir e servir uma pessoa doente, ainda que ele possa ter tantas erupções contagiosas na pele em si quanto pelos em seu corpo, e ainda que ele fique encurvado carregando uma centena de corpos tomados pela peste! O que todas estas pestes ou males são diante de Deus, que se liga a nós e obriga a si mesmo a ser nosso auxiliador e médico? Vergonha e mais vergonha sobre você, você crente cético, por desprezar tão grande conforto e deixar-se ficar mais apavorado por algumas pequenas bolhas ou alguma incerteza ao invés de encorajado pelas tão certas e fiéis promessas de Deus! De que valeria a você se todos os médicos do mundo estivessem a seu serviço, mas Deus não estivesse presente. Novamente, que mal poderia tomá-lo se o mundo o abandonasse e nenhum médico permanecesse contigo, mas Deus permanecesse contigo como sua segurança? Não sabes que você está rodeado por milhares de anjos que cuidam de você de tal forma que você pode de fato, calcar aos pés a praga como está escrito no Salmo 91 [:11-13], “Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra. Pisarás o leão e a áspide, calcarás aos pés o leãozinho e a serpente.”

Portanto, queridos amigos, não nos deixemos ficar tão desesperados a ponto de abandonar os nossos, a quem temos o dever ajudar, e fujamos de maneira tão covarde dos terrores do diabo, ou permitir que ele tenha a alegria de zombar de nós e irritar e perturbar a Deus e a Seus anjos. Pois é certamente verdade que aquele que despreza tão grandes promessas e mandamentos de Deus e deixa seu próprio povo desprovido, viola todas as leis de Deus e é culpado de assassinar a seu próprio irmão a quem abandonou. Temo que em um caso como este a promessa de Deus será revertida e transformada em ameaças horríveis e o salmo [41] será lido desta forma contra eles: “Maldito seja aquele que não provê para o necessitado, mas escapa e o abandona. O Senhor a seu tempo não o protegerá no dia mau, mas fugirá dele e o abandonará, O Senhor não o protegerá nem lhe preservará a vida, ele não prosperará na terra, mas o entregará às mãos dos seus inimigos. O Senhor não o confortará na sua doença nem o retirará do seu leito de enfermidade. Pois “com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também” [Mateus7:2]. Nada mais pode advir disto. É terrível ouvir isso, mais terrível ainda estar à espera de que isso aconteça, mais terrível ainda experimentar isto. O que mais pode acontecer se Deus retirar suas mãos e abandonar-nos senão à pura maldade e todo tipo de mal? Não poderia ser de outra forma se, contra o mandamento de Deus, alguém abandonar ao seu próximo. Este destino certamente se abaterá sobre estas pessoas, a menos que elas se arrependam sinceramente.

Eu sei muito bem, que se fosse Cristo ou sua mãe que estivessem acamados e doentes, todos seriam muito solícitos e de bom grado se tornariam um servo ou ajudante. Todo mundo gostaria de ser corajoso e destemido; ninguém fugiria, mas todos viriam correndo. E ainda assim eles não escutam o que o próprio Cristo diz “como fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” [Mateus 25:40]. Quando ele fala do maior mandamento Ele diz “O segundo, semelhante a este, é: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” [Mateus 22:39]. Aqui se escuta que o mandamento de amar ao próximo é igual ao maior mandamento de todos que é amar a Deus; e que o que fizer, ou deixar de fazer, pelo seu próximo significa fazê-lo a Deus. Se deseja servir a Cristo e esperar nEle, muito bem, você tem o seu próximo doente ao alcance das tuas mãos. Vá até ele e sirva-o, e você certamente encontrará Cristo nele, não externamente, mas em sua Palavra. Se você não deseja ou não se importa em servir ou seu próximo pode ter certeza de que se fosse Cristo deitado você não o faria também e o deixaria lá. Estas coisas são apenas ilusões da sua parte que o inflam com orgulho vão, nomeadamente, que você realmente serviria a Cristo se ele fosse esta pessoa. Isto são apenas mentiras; qualquer um que quiser servir a Cristo sirva pessoalmente ao seu próximo da mesma maneira. Isto digo como uma admoestação e encorajamento contra o medo e fuga vergonhosa a que nos tenta o Diabo para que desprezemos o mandamento de Deus em nosso compromisso com o nosso próximo e para que caiamos em pecado por falta.

Outros pecam por excesso. Eles são muito duros e imprudentes, tentando a Deus e desprezando tudo que pode conter a morte e a peste. Eles desdenham do o uso de remédios; não evitam lugares ou pessoas infectadas pela peste, mas levianamente zombam disso e desejam provar quão independentes são. Dizem que é uma punição de Deus; se Ele deseja protegê-los Ele o fará sem medicamentos ou cuidado. Isto não é confiar em Deus, mas tentá-lo. Deus criou os remédios e nos proveu com inteligência para guardar e cuidar bem do nosso corpo para que possamos viver em boa saúde.

Se alguém não faz uso de sua inteligência ou da medicina quando poderia fazê-lo sem detrimento para o seu próximo, tal pessoa machuca o seu próprio corpo e deve cuidar para que não se torne um suicida aos olhos de Deus. Pelo mesmo raciocínio uma pessoa pode renunciar comer ou beber, comida ou abrigo, e corajosamente proclamar sua fé de que se Deus quisesse o preservar da fome e do frio Ele poderia fazê-lo sem comida ou roupas. Na verdade, isso seria suicídio. É ainda mais vergonhoso para uma pessoa não prestar atenção ao seu próprio corpo e falhar ao protegê-lo da melhor forma que puder e então infectar e intoxicar outros que poderiam ter continuado vivos se este tivesse tomado cuidado do seu corpo como deveria. Ele é, portanto, responsável perante Deus pela morte do seu próximo e é um assassino várias vezes. De fato, tais pessoas se comportam como se uma casa estivesse pegando fogo na cidade e ninguém tentasse apagá-lo. Ao invés disso, dão caminho às chamas para que toda a cidade seja consumida dizendo que se Deus desejar, Ele pode salvar a cidade sem água para apagar o fogo.

Não, meus caros amigos, isto não é bom. Usem remédios, tomem o que pode ajudá-los; desinfetem a casa, o jardim e a rua; evitem pessoas e lugares onde o seu próximo não precisa da sua presença ou tenha se recuperado e aja como um homem que deseja ajudar apagar o incêndio em sua cidade. O que mais é esta epidemia senão um incêndio que ao invés de consumir lenha e palha consome a vida e o corpo? Você deve pensar desta forma: “Muito bem, pelo decreto de Deus o inimigo nos enviou um veneno e resíduos mortais. Portanto eu devo pedir a Deus que misericordiosamente nos proteja. Então devo fazer vapor, ajudar a purificar o ar, administrar remédios e tomá-los. Evitarei lugares e pessoas onde minha presença não é necessária. Para não me contaminar e assim, porventura, não contaminar outros e assim causar mortes como resultado da minha negligência. Se Deus desejar me levar, ele certamente me encontrará e eu terei feito o que Ele esperava de mim e por isso não sou responsável nem pela minha morte nem pela dos outros. Entretanto, se o meu próximo precisar de mim, não evitarei lugares ou pessoas, mas irei livremente como dito acima. Veja esta é uma fé temente a Deus pois não é nem impetuosa nem imprudente e não tenta a Deus.

Além disso, aquele que contraiu a doença e se recuperou deveria manter-se distante de outras pessoas e não permitir que elas estejam na sua presença a menos que seja necessário. Embora alguém devesse tê-lo ajudado quando precisou, como dito anteriormente, ele deveria em retorno, após a sua recuperação, agir de tal forma que ninguém corra riscos desnecessários por sua causa e cause a morte de alguém. “Aquele que ama o perigo”, diz o sábio,” perecerá” [Eclesiástico 3:26][17]. Se as pessoas de uma cidade se mostrarem corajosas em sua fé quando o próximo necessita e precavidas quando não há emergência, e se todos ajudassem a combater o contágio da melhor forma que puderem, então o número de mortos seria de fato mais moderado. Mas se alguns estão muito em pânico e abandonam seu próximo em apuros, e se alguns são tão tolos a ponto de não tomarem as devidas precauções, mas agravam o contágio, então o diabo está no auge e muitos morrerão. Dos dois lados esta é uma grave ofensa a Deus e ao homem - ao primeiro por tentá-lo e ao segundo por levá-lo ao desespero. Então aquele que foge, o diabo o perseguirá, aquele que fica será feito cativo pelo diabo para que não escape.

Alguns são piores até mesmo do que isso. Eles mantêm em segredo que estão doentes e vão estar com os outros crendo que contaminando-os e infectando-os também serão capazes de se livrar da peste e salvar-se. Com isto em mente, adentram ruas e casas, tentando selar crianças e servos com a doença e assim se salvar. Eu creio certamente que isso é coisa do Diabo, aquele que ajuda a girar a roda do destino para que isto aconteça. Disseram-me que alguns são tão incrivelmente perversos que circulam entre as pessoas e entram em casas porque estão contristados que a peste não tenha chegado tão longe e desejam impregná-la nestes lugares, como se isto fosse uma piada como por pulgas nos casacos de pele de alguém ou moscas na sala de estar. Eu não sei se deveria crer nisto; se for verdade, eu não sei se nós alemães na verdade não somos diabos ao invés de seres humanos. Deve-se admitir que alguns são extremamente grosseiros e pervertidos. O diabo nunca fica ocioso. Meu conselho é que se algum destes for descoberto, que o juiz o tome pela orelha e o leve ao Mestre Jack, nosso carrasco, como deliberados e abertamente assassinos. O que mais são estas pessoas senão assassinos em nossa cidade? Aqui e ali um assassino espetará uma faca em alguém e ninguém encontrará o culpado. Então estas pessoas infectam uma criança aqui, uma mulher ali e nunca podem ser encontrados. Eles se riem como se tivessem conquistado algo. Onde isto é o caso, seria melhor viver entre as feras selvagens do que com tais assassinos. Eu não sei como pregar a estes assassinos. Eles não dão a mínima. Apelo às autoridades para que se encarreguem disso e entreguem-nos, para ajuda e conselhos, não a médicos, mas ao Mestre Jack, o carrasco.

Se no Antigo Testamento o próprio Deus ordenou que os leprosos fossem banidos da comunidade e obrigados a viver fora da cidade para evitar a contaminação [Levítico 13-14], nós devemos fazer o mesmo com esta peste perigosa de maneira que qualquer um que seja infectado se manterá distante de outras pessoas, ou se deixará ser levado para que lhe seja dado pronto atendimento com medicamentos. Em tais circunstâncias é nosso dever assistir tal pessoa e não a abandonar em sua condição, como pontuei repetidamente antes. Então a contaminação será contida a tempo, o que beneficia não somente o indivíduo, mas também toda a comunidade que poderia ter sido infectada se apenas uma pessoa pudesse contaminar outras. A peste aqui em Wittenberg tem sido causada por nada além de sujeira. O ar, graças a Deus, ainda está limpo e puro, mas alguns se contaminaram por causa do desleixo e imprudência de outros. E o diabo tem prazer no terror e fuga que causou entre nós. Que Deus o frustre! Amém.

Isto é que pensamos e concluímos sobre a questão de fugir da morte pela peste. Se pensais de outra maneira, que Deus o esclareça. Amém[18].

Como esta carta será impressa para que o povo leia, eu considero útil acrescentar breves instruções sobre como cuidar e prover para a alma no tempo da morte. Fizemos isto oralmente de púlpito e ainda o fazemos todos os dias em cumprimento a este ministério para o qual fomos chamados como pastores.

Primeiro, deve-se admoestar as pessoas a irem à igreja para que possam aprender por meio da Palavra de Deus como viver e como morrer. Deve ser dito que aqueles que são rudes e perversos a ponto de desprezar a Palavra de Deus enquanto estão em boa saúde devem ser abandonados quando estiverem doentes a menos que demonstrem seu remorso e arrependimento com ardente desejo, lágrimas e lamentações. Aquele que deseja viver como um pagão ou um cão e não se arrepende publicamente não deve esperar que lhe seja administrado o sacramento ou que o consideremos como um cristão. Que morra como viveu pois não devemos jogar pérolas aos porcos nem dar aos cachorros aquilo que é sagrado [Matetus 7:6]. É triste dizer [mas] há muitos grosseiros, bandidos endurecidos que não se importam por suas almas quando vivem nem quando morrem. Simplesmente se deitam e morrem como animais irracionais.

Segundo, todos deveriam preparar-se em tempo e aprontar-se para morte indo a confissão e tomando os sacramentos uma vez na semana ou na quinzena. Devem se reconciliar com o seu próximo e fazer seu testamento, de maneira que se o Senhor bater à sua porta e partirem antes que um pastor ou capelão possa chegar, que tenham provido para sua alma, não tenham deixado nada por fazer e tenham-se entregado a Deus. Onde houver muitas fatalidades e houver apenas dois ou três pastores a serviço é impossível visitar a todos, dar instruções e ensinar o que um cristão precisa saber na angústia da morte. Aqueles que foram descuidados e negligentes neste assunto devem dar conta de si mesmos. A culpa é deles mesmos. Afinal, não podemos criar um púlpito privado e um altar diário em suas cabeceiras simplesmente porque desprezaram o púlpito público e o altar ao qual Deus os convocou e chamou.

Terceiro, se alguém deseja que o capelão ou pastor venha, deixe que o doente o chame e deixe-o fazê-lo enquanto ainda em sã consciência antes que a doença confunda o paciente. O motivo pelo qual digo isso é que alguns são tão negligentes que não requisitam nem enviam mensagem alguma antes que a alma esteja pronta para partir e esteja na ponta da língua[19]e eles não sejam mais racionais ou capazes de falar. E então nos dizem, “Prezado senhor, diga a ele o melhor que puder”, mas antes, quando a doença se iniciava, não queriam visitas pastorais, diziam, “Oh, não há necessidade. Eu creio que ele vá melhorar.” O que deve um pastor diligente fazer com tais pessoas que negligenciam o corpo e a alma? Eles vivem e morrem como feras do campo. Querem que ensinemos o evangelho no último minuto e administremos o Sacramento como se estivessem sob o papado quando ninguém os perguntava se criam ou se entendiam o evangelho, mas apenas enfiavam o sacramento goela abaixo como se fossem sacos de pão.

Isso não vai funcionar. Se alguém não pode falar ou dar sinal de que acredita, entende e deseja o sacramento - especialmente se ele voluntariamente o negligenciou - não o daremos a qualquer momento que pedir. Fomos ordenados a não oferecer o santo sacramento a descrentes, mas a crentes que podem afirmar e confessar sua fé. Que os outros permaneçam sós em sua descrença; somos inculpáveis pois não fomos preguiçosos na pregação, no ensino, na exortação, na consolação, na visitação ou em qualquer outra coisa pertinente ao nosso ministério e ofício. Isso, em resumo, é nossa instrução e o que praticamos aqui. Não escrevemos isto para você em Breslau porque Cristo está com você e sem nosso auxílio Ele irá amplamente instruí-lo e suprir as suas necessidades com Seu próprio bálsamo. A Ele seja a glória e a honra bem como a Deus o Pai e o Espírito Santo, eternamente. Amém[20].

Como tratamos da questão da morte não posso me refrear de dizer algo sobre enterros. Em primeiro lugar, deixo aos doutores em medicina e outros com maior experiência que a minha em tais assuntos que decidam quanto ao perigo de manter os cemitérios dentro dos limites das cidades. Não sei e não me arrisco a entender se os vapores e névoa que sobem dos túmulos poluem o ar. Se assim for, meus primeiros alertas dão ampla razão para colocar os cemitérios fora da cidade. Como aprendemos, todos nós somos responsáveis por banir essa contaminação com o máximo de nossa capacidade pois Deus nos ordena a cuidar do corpo, protegê-lo e nutri-lo para que não sejamos expostos desnecessariamente. Em uma emergência, contudo, devemos ser corajosos o suficiente para arriscar nossa saúde, se necessário. Assim devemos estar prontos para ambos - viver ou morrer de acordo com a vontade de Deus. Pois “nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si mesmo”, como diz São Paulo, em Romanos 15 [14:7].

É bem conhecido que o costume na antiguidade, entre judeus e pagãos, entre os santos e pecadores, era de enterrar os mortos fora da cidade. Eram tão prudentes como nós dizemos ser nós mesmos. Isto também é evidente no Evangelho de São Lucas, quando Cristo ressuscitou dos mortos o filho da viúva às portas de Naim (para o texto [Lucas 7:2] que afirma, “eis que saía o enterro do filho único de uma viúva; e grande multidão da cidade ia com ela”). Naquele país a prática era de enterrar os mortos fora da cidade.

A tumba de Cristo também foi preparada fora da cidade. Abraão também comprou uma sepultura no campo de Efrom próximo à caverna de Macpela[21]onde todos os patriarcas desejavam ser enterrados. O Latim emprega o termo efferi, isto é, “carregar para fora”, o qual entendemos como “levar à sepultura”. Não somente carregavam para fora os seus mortos, mas também os queimavam em cinzas para manter o ar o mais puro possível.

Meu conselho, portanto, é que seguir estes exemplos e enterrar seus mortos fora da cidade. Não apenas necessidade, mas piedade e decência deveriam induzir-nos a prover um cemitério para enterros públicos fora da cidade, isto é, de nossa cidade, Wittenberg.

Um cemitério por direito deve ser um lugar de quietude, removido de outras localidades, para onde se pode ir e meditar sobre a morte, o Juízo Final, a ressurreição e fazer suas orações. Tal lugar deve ser decente, um local santificado, a ser adentrado com tremor e reverência porque sem dúvida santos descansam ali. Podem até mesmo ser colocadas imagens religiosas e retratos pintados na parede.

Mas como é o nosso cemitério? Três ou quatro ruelas, dois ou três mercados que fazem com que não haja na cidade nenhum local mais ocupado ou barulhento do que o cemitério. Pessoas e gados passam a qualquer hora, dia e noite. Todo mundo tem uma porta ou um caminho de suas casas que dê no local, e todo tipo de coisa acontece ali, algumas provavelmente não devem nem mesmo ser mencionados. Isto destrói totalmente o respeito e reverência pelos túmulos e as pessoas ali pisam sem nem pensar, como se estivessem sobre os túmulos de criminosos executados. Nem mesmos os Turcos desonrariam o lugar como nós. E ainda, um cemitério deveria inspirar-nos pensamentos devotos, para a contemplação da morte e da ressurreição, e respeito pelos santos que ali descansam. Como isso pode ser feito em um local tão banal em que todos passam e para o qual dão as portas de várias casas? Se o cemitério deve ter alguma dignidade, eu preferiria ser sepultado no rio Elba ou na floresta. Se um cemitério fosse localizado em um local tranquilo, remoto onde ninguém pudesse criar uma trilha através dele, seria um local tranquilo, próprio e santo e poderia ser de tal forma arranjado que inspiraria devoção aos que vão ali. Este seria o meu conselho, sigam isso os que assim desejam. Se alguém souber mais, deixe-o liderar. Eu não sou nenhum mestre.

Concluindo, admoestamos e pedimos a vocês no nome de Cristo para ajudar-nos com suas orações a Deus para que possamos batalhar, com a Palavra como norma, contra a real e espiritual peste de Satanás em sua perversidade com a qual ele intoxicou e contaminou o mundo. Isto é, particularmente, contra aqueles que blasfemam o sacramento, ainda que também haja outros sectários. Satanás está furioso e talvez sinta que o Dia do Senhor está próximo. É por isso que ele está enraivecido e tenta por meio de seus entusiastas[22]roubar-nos de nosso Salvador, Jesus Cristo. De acordo com o papado, Satanás era/estava simplesmente a/na “carne”, uma vez que até mesmo o chapéu do monge era visto como sagrado. Agora, ele não é mais do que mero “espírito” e a carne de Cristo e a Palavra não significam mais nada. Eles fizeram uma resposta ao meu tratado[23]há muito tempo, mas estou surpreso que até hoje não tenha me alcançado aqui em Wittenberg[24]. [Quando chegar] Eu responderei, se Deus quiser, novamente e depois deixarei o assunto de lado. Eu posso imaginar que eles apenas ficarão piores. Eles são como percevejos que tem um cheiro ruim, mas quanto mais esmagamos mais fedem. Eu espero que tenha escrito o suficiente neste panfleto para aqueles que podem ser salvos para que - Deus seja louvado – sejam vitoriosos e muitos mais sejam fortalecidos e confirmados na verdade. Que Cristo nosso Senhor e Salvador preserve-nos em uma fé pura e amor fervoroso, sem mácula e puros até o Seu dia. Amém. Orem por mim um pobre pecador.


[1] Em 6 de julho de 1527, Lutero sofreu um grave ataque de anemia cerebral, uma doença da qual sofreu repetidamente. A depressão profunda que se seguiu pode ser uma das razões para o tom suave da primeira parte deste panfleto.

[2] Ver 1 Coríntios. 3:2.

[3] Conferir Mateus. 14:30.

[4] Um eleitor chamado John escreveu a Lutero e pediu a ele e aos professores da universidade que fugissem por causa da praga e fossem para Jena. Lutero, Bugenhagen e dois capelães, entretanto, permaneceram em Wittenberg.

[5] Na versão contemporânea utilizada para esta tradução (Bíblia Sagrada, ARA), essa passagem encontra-se em dois versículos de João 10, 11b e 12a [Nota das Tradutoras].

[6]Agostinho em MPL 30, 1017.

[7] Conferir. Efésios 6:5-9.

[8] Conferir Mateus 7:12.

[9] Gênesis 12:13.

[10] Gênesis 26:7.

[11] Conferir Gênesis. 27:43-45.

[12] Conferir. 1 Samuel. 19:10-17; 2 Samuel. 15:14.

[13] Jeremias 26:21.

[14] Conferir Êxodo 2:15.

[15] Conferir. Ezequiel 14:21.

[16] Neste ponto, Lutero interrompeu sua escrita. Ele a retomou, no mais tardar, no início de setembro, como indica uma referência em um sermão de 15 ou 21 de setembro. A segunda parte do panfleto reflete a chegada da praga em Wittenberg.

[17] Nota da Revisão: o livro de Eclesiástico é um deuterocanônico, de forma que não é reconhecido por diversas denominações protestantes atualmente. É reconhecido pela doutrina Católica Romana e pela Ortodoxa. Em traduções contemporâneas para o Português-BR, encontramos esse trecho no versículo 27: "[...] Quem ama o perigo nele perecerá.".

[18] A seção seguinte foi adicionada posteriormente por Lutero.

[19] De acordo com a crença popular na época a alma partia do corpo pela boca.

[20] O que se segue ao parágrafo de conclusão é uma parte adicionada mais tarde em uma página separada a qual Lutero adicionou evidentemente antes de o panfleto ser publicado.

[21] Gênesis 23:9 (tradução alemã de Lutero). Antigas cavernas Hebraicas tinham uma segunda câmara na qual os ossos de sepultados anteriores eram colocados para abrir espaço para outros corpos.

[22] Isto é, os Schwärmer [“entusiastas”], que enfatizaram o uso “espiritual” do sacramento. Conferir That These Words of Christ [“Que estas palavras de Cristo”], “This Is My Body,” [“Este é o Meu Corpo] etc., Still Stand Firm Against the Fanatics [“Ainda Permanecem Firmes Contra os Fanáticos”] (1527). LW 37, 3–150, especially p. 18, n. 14.

[23] O tratado mencionado na nota 22.

[24] Esta afirmação ajuda a datar a carta. A comunicação, crítica severa de Zwinglio, chegou em 11 de novembro de 1527.


Martinho Lutero, Obras de Lutero, vol. 43: Devotional Writings II, ed. Jaroslav Jan Pelikan, Hilton C. Oswald e Helmut T. Lehmann, vol. 43 (Filadélfia: Fortress Press, 1999), pp. 119–38.

Tradução não oficial da carta de Martinho Lutero (versão em Inglês), extraída de The Luteran Witness. Texto original disponível em: <https://blogs.lcms.org/wp-content/uploads/2020/03/Plague-blogLW.pdf>. Acesso em 22 de mar de 2020. A carta originalmente foi escrita em Alemão, não em Inglês. Para os versículos citados por Lutero em sua carta, utilizou-se a tradução de João Ferreira de Almeida da Bíblia Sagrada, revista e atualizada (ARA). A exceção encontra-se na nota de rodapé 21, em que foi preservada a tradução que o próprio Lutero fez de Gênesis 23:9.

Tradução: Daniela Teles Andrade Mota e Adriana Mesquita Corrêa Bueno.

Revisão: Raquel Ferreira Kischlat.


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